Uma questão cultural
Reportagens sobre o iPad pipocam na imprensa há meses, muito antes de sua apresentação oficial em 27 de janeiro. Sei que é um assunto incrivelmente debatido. Mas em meio a tantas opiniões especializadas, achei interessante registrar um ponto de vista leigo. Seria humanamente impossível ler todas as menções já publicadas sobre o aparelho da Apple – que registrou mais de 7 mil tweets por minuto apenas no dia de sua estreia –, mas posso me considerar bem informado sobre o fenômeno. Tenho acompanhado as discussões quase hamletianas que buscam decifrar o “ser ou não ser” da jogada de Steve Jobs, que deve iniciar sua era comercial no fim de março.
Afinal é ou não é uma revolução digital? Do ponto de vista técnico, não: incompatibilidade com flash, ser monotarefa e não ter câmera são temas que dominam os fóruns geeks do planeta. Mas no olhar de quem vê a tecnologia apenas como um meio é, sim, um prenúncio de mudanças no horizonte.
Mais do que um avanço de hardware ou software, a grande transformação sugerida pelo iPad deriva mesmo do marketing digital. A expectativa associada naturalmente a qualquer novidade vinda da marca de Steve Jobs foi cuidadosamente amplificada pela empresa. Rumores – muitos verdadeiros, o que indica um vazamento controlado de informações – alimentaram blogs, tweeters, sites e toda a mídia tradicional durante meses. A corrida para ver quem antecipava primeiro o gadget chegou ao cúmulo na recompensa de US$ 100 mil oferecida por um portal para quem pudesse trazer um aparelho antes do lançamento.
Quando finalmente o iPad se materializou, muitos especialistas não tardaram a criticar as especificações técnicas do produto. Com o filtro de quem devora profissionalmente equipamentos hi techs, a maioria sugeriu que o tablet da Apple era apenas mais do mesmo.
No entanto, o fenômeno deve ser analisado muito além da dimensão física. A amplitude do lançamento teve repercussões globais, algumas que devem se estender por anos. Assim como ocorreu com o iPhone - com a diferença que o tablet mexeu com o mercado antes mesmo do lançamento -, na esteira do iPad outras potências tecnológicas anunciaram seus modelos com telas sensíveis ao toque. Até Microsoft seguiu a onda e divulgou dois aparelhos: o Slate, em parceria com a HP, e o Courier, com duas telas multitouch. O medo de perder mercado para a Apple levou a Amazon a projetar um super Kindle, com tela colorida multitouch.
O fato é que a proposta do equipamento o torna extremamente interessante para soft users de tecnologia como eu. Talvez não represente uma reviravolta digital, mas do ponto de vista cultural e de negócios deve sim criar novos mercados e dar sentido a várias áreas ainda de pouca expressão. O empenho da Apple em costurar acordos de conteúdo com jornais, revistas e editoras de livros revela a verdadeira essência do iPad: o de ser uma espécie de bolsa digital, ou seja, um acessório onde cabem todas as suas necessidades virtuais e que você pode levar para qualquer lugar – da mesma forma que as peças femininas.
O tablet é, portanto, uma lufada de multimídia fresca para uso cotidiano, que permite acessar a internet em movimento, ler livros – e, o mais importante, baixar uma obra em qualquer parte do mundo a qualquer momento, desde que haja uma conexão à rede mundial -, ouvir músicas, assistir filmes, checar e-mails, escrever no blog, twittar e assim por diante. Tudo isso a partir de um dispositivo com o tamanho, espessura e peso de um caderno escolar. Isso sem contar as centenas de milhares de aplicativos para iPhone e iPod Touch que vão desde detectores de alagamentos nas ruas de São Paulo a programas de realidade aumentada.
Com a enxurrada de lançamentos de competidores prometida para esse ano, os tablets rapidamente devem criar novas demandas de mercado. Sou avesso à futurologia em geral, mas imagino possibilidades. Em alguns anos, a maioria das publicações impressas, provavelmente, terá sua edição eletrônica repletas de sons, infográficos e animações. Muitas terão apenas versão digital e novos títulos poderão ser lançados até por editoras caseiras, espécies de home magazine ou home newspaper. Parecem-se com sites? Pois os portais vão ter conteúdo cada vez mais multimídia e com qualidade mais próxima de DVDs e da TV. Ter um tablet sempre à mão também pode ampliar as fronteiras do geomarketing e do marketing digital em especial aquele voltado às redes sociais – é só fazer as contas: gente conectada mais tempo = maior volume de mensagens, alcance e troca de informações em tempo real. Quem sabe o iPad até vai fazer os celulares virarem telefones de novo.














February 25th, 2010 at 8:44 am
Sérgio,
Acredito que quando o Ipad estiver nas mãos do público… vá ser realmente compreendido. Risco em dizer que vá afetar na venda de PCs, Netbooks e Notebooks para uso pessoal.
Em alguns meses veremos
[]s
Alessandro
February 25th, 2010 at 5:36 pm
Não acredito que afetará a vendas de PCs, notebooks ou mesmo netbooks, pois os objetivos são diferentes, é um produto que na minha visão será o futuro para bibliotecas digitais, até mesmo se aplicando a bibliotecas que disponibilizam rede sem fio e até mesmo suas obras em formato digital.
Vitor
February 25th, 2010 at 6:16 pm
Também concordo com você, Vitor. Eu perco muito tempo procurando livros na biblioteca de minha Faculdade. Os Ipad´s vão tornar as bibliotecas mais práticas.
Abraços!